Entrevista: Thaís Guedes

Em entrevista à Agência de Notícias, a pesquisadora Thaís Guedes, pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), trata da importância da análise de padrões de distribuição de espécies de anfíbios e répteis. Além disto, explica o que é a Biogeografia Integrativa e como ela pode contribuir para a conservação da herpetofauna. Guedes foi uma das ministrantes do simpósio “Biogeografia e Conservação Aplicadas à Herpetofauna”, realizado no dia 22 de julho, durante o VI Congresso Brasileiro de Herpetologia, no Hotel Fiesta, em Salvador.

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POR EDVAN LESSA*

Ciência e Cultura – Quais são os eventos que mais impactam a fauna de anfíbios e répteis no Brasil?

Thaís Guedes – Podemos listar vários eventos que causam impacto à herpetofauna brasileira. A perda e destruição de habitats é tratada pela IUCN (International Union for Conservation of Nature) como a principal causa de perda da biodiversidade no mundo, e no Brasil não é diferente. Nossas paisagens naturais vêm sendo destruídas e substituídas por lavouras, em sua maioria, de soja e cana-de-açúcar e áreas de pastagem extensiva. Muitas espécies não sobrevivem em ambiente alterado e tais atividades antrópicas resultam na extinção de espécies cuja sobrevivência depende da heterogeneidade e peculiaridades do ambiente natural.

Ciência e Cultura – A biogeografia seria a principal saída para proteger a biodiversidade? Como ela pode ajudar na conservação da herpetofauna?

Thaís Guedes – A ciência da conservação da biodiversidade deve ser integrativa e utilizar diversas informações como ferramentas para promover a conservação das espécies e suas áreas naturais. A biogeografia pode ser mais uma dessas ferramentas. Análises de padrões de distribuição das espécies são fundamentais para planejamentos de conservação, como a escolha de locais para localização das reservas e ações de conservação que devem, pelo menos, representar os padrões de biodiversidade atual.

Ciência e Cultura – E do que se trata a biogeografia integrativa?

Thaís Guedes – É objetivo da biogeografia descrever os padrões de distribuição dos organismos do planeta e explicar a história que teria conduzido a tais configurações espaciais. Tal compreensão só é possível à luz da biogeografia integrativa, que busca unir informações a respeito dos organismos, suas relações filogenéticas, padrões de distribuição geográfica e ecologia sob um cenário de eventos geológicos e históricos. Certamente, é um sistema complexo a decifrar e que necessita da integração de diversas áreas como a ecologia, geografia, sistemática, geologia, entre outras, para efetivamente alcançar seu objetivo.

Ciência e Cultura – Os anfíbios e répteis da América do Sul despertam bastante interesse dos herpetólogos do País. Existe alguma particularidade desses animais em relação aos de outros lugares do mundo?

Thaís Guedes – Despertam bastante interesse dos pesquisadores do Brasil e do mundo. Acredito que o interesse dos pesquisadores segue a ordem de grandeza de sermos um país megabiodiverso e do fato de que há muito o que investigar aqui. Temos lacunas importantes no conhecimento básico que devem ser preenchidas: provavelmente há muitas espécies por descrever, ainda não conhecemos a distribuição geográfica e atributos ecológicos de muitas espécies formalmente descritas e também não temos informações filogenéticas suficientes. Essas informações são fundamentais para nortear estudos mais complexos que envolvem os padrões e processos geradores da biodiversidade e que abastecem varias áreas das ciências biológicas.

Foto: Arquivo pessoal.Foto: Arquivo pessoal.

Ciência e Cultura – Como ocorre a distribuição geográfica desses animais aqui? Existem padrões?

Thaís Guedes – A biogeografia é a ciência interessada em compreender os padrões de distribuição da diversidade no globo. Postula que as espécies não estão distribuídas ao acaso, e sim agrupadas em determinadas áreas, ou seja, existe uma regionalização da biota. Para a herpetofauna brasileira, os estudos biogeográficos ainda são incipientes, contudo, existem publicações recentes usando métodos biogeográficos e que detectam padrões de distribuição de répteisSquamata do Cerrado e anfíbios da Caatinga, por exemplo. Alguns outros trabalhos nesta linha estão em vias de publicação e também detectam áreas de endemismo para serpentes da Mata Atlântica e da Caatinga. Apesar da complexidade da distribuição da herpetofauna, existem sim padrões e estes estão sendo detectados graças ao emprego de vários métodos da biogeografia.

Ciência e Cultura – Durante o doutorado você trabalhou a diversidade e biogeografia de serpentes da Caatinga. Quais são as contribuições deste trabalho para o campo da Herpetologia?

Thaís Guedes – As contribuições deste trabalho são diversas. É um amplo estudo sobre riqueza, história natural, distribuição geográfica e biogeografia das espécies de serpentes na região da Caatinga, reunindo informações obtidas a partir da análise de cerca de 7,5 mil espécimes tombados em coleções científicas. Os resultados obtidos revelam que a Caatinga mostra elevada riqueza de espécies e abriga um número considerável de endemismos. O estudo também traz informações detalhadas sobre história natural e distribuição de todas as espécies, que são dados básicos para estudos biogeográficos e para o delineamento de estratégias de conservação nesta região. Revela também que a Caatinga não é homogênea, mas sim regionalizada, pois os padrões de distribuição das serpentes na área estão relacionados a eventos de vicariância. Oito áreas de importância biogeográfica foram detectadas na Caatinga e estas corroboram as maiores divisões topográficas, pedológicas e vegetacionais conhecidas para a região. Os resultados obtidos correspondem a subsídios importantes para a conservação das serpentes e da Caatinga.

Ciência e Cultura – Há alguma descoberta recente acerca da ordem Squamata que ocorre nas formações de vegetação aberta da América Meridional?

Thaís Guedes – No que diz respeito às formações abertas sul-americanas, a descoberta envolve um novo olhar sobre estas áreas: Caatinga, Cerrado, Pantanal e Pampas. Outrora consideradas pobres em relação ao número de espécies e endemismos, sem uma fauna própria e, portanto, de baixa prioridade para conservação, agora passam a ser vistas como áreas que abrigam uma fauna complexa com elevada riqueza e endemismo de espécies e regionalizada, ou seja não-homogênea. Trabalhos de descrição de novas espécies, ecologia, biogeografia e filogeografia vêm ressaltando a importância destas áreas e sua fauna nos complexos processos de diversificação da biota Neotropical.

Ciência e Cultura – Além do que discutimos aqui, poderia explicar um pouco o que foi abordado durante do VI Congresso Brasileiro de Herpetologia?

Thaís Guedes – Participei do congresso de duas formas: como coordenadora do minicurso “Biogeografia e conservação aplicadas à herpetofauna” e como palestrante do simpósio “Biogeografia de serpentes neotropicais: integrando evolução e conservação”. No minicurso abordamos a filosofia da biogeografia, métodos utilizados para responder as principais perguntas biogeográficas e discutimos trabalhos científicos relevantes na área. Ao longo do minicurso colocamos a “mão na massa”, pois contaremos com aulas práticas de alguns métodos utilizados em biogeografia. No simpósio, foi abordada a biogeografia baseada em padrões, usando como modelo dados de distribuição e hipóteses filogenéticas de serpentes, cujo objetivo é reconhecer relações entre as biotas neotropicais.

*Edvan Lessa é estudante de Jornalismo da Facom-UFBA e bolsista da Agência de Notícias Ciência e Cultura.

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